“Jovens envelheçam”

Quando eu li essa frase dita pelo Nelson Rodrigues, achei um tanto quanto exagerada, afinal pensei “Coisas de Nelson”. Depois em um segundo momento, achei a frase perfeita. Vou explicar a minha lógica Rodriguiana.

A gente passa uma vida inteirinha tentando se achar. Todo drama começa (mais precisamente) a pesar em cima de nós, na época da nossa adolescência, essa passagem entre uma vida sem preocupações, para uma vida de responsabilidades é um verdadeiro pesadelo. Em se tratando das questões estéticas, elas ficam cada vez mais ressaltadas e problemáticas, afinal se aparece uma espinha na nossa cara, isso é o suficiente pra gente querer enfiar a cara na terra e nunca mais sair do jardim de casa.

É muito sofrimento juvenil, muita insegurança com o nosso corpo e uma sucessão de cagadas, digo erros. Demora pra gente pegar no tranco, pra descobrir que aquela espinha vai desaparecer um dia e que, ela não vai durar a vida toda.

Apesar do medo que os padrões de beleza e os rótulos da sociedade nos impuseram ao longo das nossas vidas, envelhecer meu caro jovem, também é uma coisa boa. A gente se livra de uma carga tão desnecessária nas nossas costas. Eu pelo menos me livrei de um monte delas, não ligo pra tantas coisas sem importância que antigamente me faziam perder o sono.

Hoje, EU sou muito mais EU, em todos os sentidos: intelectuais, corporais, filosofais, etc. Não ligo mais pra aquela espinha inconveniente, aliás se ela quiser aparecer – vou achar até graça. A palavra envelhecer às vezes se parece como uma maldição sobre nós. A pressão é enorme, o exemplo maior disso fica por conta das mídias sociais, veículos de beleza, eles tem a necessidade de vender matérias baseadas no impossível. Me diga com um título desses, quem quer envelhecer?!“Beleza eterna: as quarentonas que não envelhececem”. Oi?! Por um acaso, somo personagens de um conto de fadas?! Eu não vejo esses títulos se referindo aos homens.

Pela lógica, se você for envelhecer só faça isso se souber envelhecer. Eita, isso além de contraditório é uma maneira tão cruel de limitar a nossa autoestima. Essa obsessão com juventude é contraproducente, irreal e beira a patologia. É quase um atestado de aposentadoria compulsória, um convite para o apocalipse geriátrico, feito totalmente na marra.

Porque, afinal só existe duas fases na vida 
de uma mulher: Juventude X Velhice.

Se você é jovem está tudo em ordem, se não é…fuja para as montanhas. Depois de ler uma matéria que promove a Beleza Eterna – O que mais nos resta a fazer?! Não, não existe beleza eterna amiga, envelhecer faz parte da vida, é, biologicamente natural, o contrário é anormal. Pega essa revista e forra o lugar aonde o seu cachorro, gato fazem coco, esse é o melhor uso para esse tipo de disseminação de uma beleza inatingível. Ser mulher quarentona (cinquentona, sessentona, e, pra cima), só faz a cobrança aumentar ainda mais, todo mundo aqui sabe que as diferenças entre os gêneros são gritantes. Um homem tem o aval para envelhecer cheio de cabelos brancos, enquanto uma mulher nunca passará despercebida nessa mesma situação sem ser criticada ou julgada, aliás haverá quem diga ser puro relaxamento e, não uma vontade própria.

Chegar próxima dos quarentas anos é sempre um sinal de alerta feminino, a gente começa a ouvir da boca de outras mulheres que o pior está por vir. Eu mesma, já me peguei fazendo isso várias vezes. Sendo a mensageira do apocalipse. Nunca parei pra entender como culturalmente isso já havia sido embutido dentro de mim, como um fato intransponível e certo. E como fato, eu apenas repassava para frente.

Desconstruir velhos padrões não é algo simples, ele passa primeiro pelas nossas sensações, não adianta eu pensar o contrário se eu sinto que realmente envelhecer é um tabu. O processo de desconstrução faz parte do nosso dia a dia, a cada nova situação que nos deparamos, precisamos analisar de forma bem consciente se estamos apenas reproduzindo um velho padrão ou se realmente pensamos dessa maneira. Toda mudança começa de dentro pra fora, ser mais gentil com você mesma faz parte dessa importante mudança de postura. Não se criticar e se julgar com frequência são duas aliadas para uma mudança de sensações, elas nos dão o direito de uma fala mais justa conosco.

A diferença entre homens e mulheres chegando na meia-idade é a uma cobrança desproporcional de padrões estéticos. Ok! Homens engordarem! Péssimo! Mulheres engordarem e, ainda por cima, envelhecerem. Sendo assim, não vamos criticar nossa coleguinha que é mais gorda do que nós, não vamos olhar atravessado para uma mulher de biquini na praia se ela não vestir 36, vamos praticar a empatia com as outras mulheres, vamos praticar a empatia conosco, se eu tenho uma barriga, ela não pode comandar a minha felicidade, quem comanda a minha vida sou eu, não ela.

Jovens, envelhecer tem suas vantagens, sem medo de ser feliz!

“Eu queria dizer à juventude que seja livre. Se o homem, de uma maneira geral, tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade mais generosa, é muito suscetível ao totalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens: envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isto é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero um pobre diabo, uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta, eu me reencontro. Por isto, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isto compromete”

Nelson Rodrigues

#Um papo sobre autoestima

Nos primórdios da blogosfera, muitas blogueiras assim como eu, começaram seus blogs falando de moda. Com o passar do tempo a gente foi acrescentando novos assuntos relacionados a mulher. Eu entrei a fundo no tema da beleza e das viagens, explorei bastante as minhas dicas, resenhas de cremes para o rosto e cabelo. Escrevi meus diários de bordo. Enfim, meu universo era sempre em torno desses assuntos.

Eu até me arrisquei em escrever algumas crônicas. Gosto muito delas. De uns meses pra cá, passei a dar maior ênfase ao tema – comportamento – nele, abordo questões variadas, como minha atual fase de vida, a de ser uma mulher que entrou na faixa dos 40 anos. Isso, além de render vários novos posts, me deixa extremamente feliz e realizada.

A identificação de várias leitoras ao meu novo tema foi surpreendente. Muitas se identificaram, com o que eu passeia a escrever. Por isso, estou me aprofundando cada vez mais nesse universo. O fato de começar um curso de Coaching Holístico, também foi determinante pra nova fase do blog. E, foi assim que eu me aproximei das meninas do Futi – Joana Cannabrava e Carla Paredes – afinal, quando o universo conspira a seu favor, ele atrai coisas boas.

Da mesma maneira que eu senti a necessidade de contar mais sobre essa nova fase, explorando os assuntos femininos com uma nova abordagem, mais real, intimista e profunda, as duas também mudaram o foco do blog. Hoje, o #paposobreautoestima é o carro chefe delas. Desde de autoaceitação até racismo, o Futi explora temas polêmicos e reais, de uma maneira aberta e muito verdadeira. Não à toa, eu participei de um encontro com a Joana (Carla mora fora do Brasil) e outras meninas, para bater papo sobre os assuntos que nos unem e nos separam ao mesmo tempo.

Apesar do frio que fazia em São Paulo, rolou muito calor humano nesse picnic, além de muito desabafo. Teve choro, abraço, beijo e muita alegria, claro, isso é muito importante. Mas o saldo mesmo, além de positivo, foi ver como estamos trabalhando a empatia entre nós. Isso não tem preço, nós mulheres nos desconstruindo uma em frente a outra, nos livrando de velhas amarras e nos tornando mais reais.

Na hora de ir embora, a Jô me abraçou e pediu pra eu contar um pouco sobre a minha nova fase. Que honra poder dividir com as leitoras delas, um pouquinho de mim no Futi. Contei como eu me sinto nos meus 44 anos de vida, o que mudou e o que eu quero pra mim, daqui pra frente e sempre. Acho que o post conseguiu passar tudo aquilo, que eu queria e que estava dentro de mim.

Fotos: Caroline Barrionuevo (@carolinebarrionuevo)

O post começa assim:

 

Eu, 44 anos!

Comecei a blogar antes de entrar na casa dos 40 anos. Apesar de conviver com meninas em média muito mais jovens do que eu, a idade (ainda) não tinha sido um fator de preocupação dentro desse universo da blogosfera, nem fora dela, muito menos na minha vida privada. Ela não tinha me pegado de jeito.

Implacavelmente, essa hora acabou chegando, eu virei uma quarentona na virada da meia noite do dia 31 de Julho de 2013, por vezes confesso que logo no início dessa fase a única diferença era mesmo o número, eu até pensei em omitir (para não ter que mentir) a idade em determinadas situações profissionais, simplesmente ignorava o ano do meu nascimento quando precisava preencher alguma ficha, achava que o fato de já fazer parte das mulheres de quarenta anos pudesse mudar alguma perspectiva em relação ao meu trabalho. Chegar nos eventos e me deparar com a possibilidade de ser uma das mais velhas do lugar com o tempo passou a me incomodar.

E, esse incômodo não parou por aí. Passei a me questionar constantemente, minha mente trabalhava sempre contra mim, criando dúvidas, medos e monstros horrorosos, todos ao mesmo tempo. Passei a me questionar; “Será que não está na hora de deixar de ser blogueira?! Estaria eu fazendo papel de ridícula no meia dessas meninas?!”

O resto, vocês podem ler AQUI.