#Nos40DoSegundoTempo

Eca, que nojo!!!

A primeira impressão é sempre a mesma pelo senso comum – mulheres que não se depilam, são nojentas e sem higiene – a desigualdade de gênero começa neste instante. Desde sempre, nós mulheres vamos à depilação, gastamos nosso dinheiro, passamos pela dor de termos nossos pelos arrancados do corpo e, diante deste cenário, o que sempre sentimos é a falta de liberdade para fazermos o que quisermos com os nossos pelos do corpo.

Deixá-los ou tirá-los passa pelo crivo da sociedade, esse é o velho e nefasto preconceito. Homens não se depilam, mulheres sim, isso deveria ser ser apenas uma coincidência?!!

Enfim, uma jovem Laura Jackson, resolveu ser uma voz dissonante e propôs, vamos passar o mês de Janeiro sem depilação e com nossos pelos no corpo?!

“Eu pensei em escrever um pouco sobre minhas experiências e como Januhairy surgiu … Eu deixei crescer os meus pelos pelo meu corpo para uma performance, como parte do meu curso de teatro, em maio de 2018. Algumas partes foram desafiadoras, já em em outras, fizeram com que os meus olhos se abrissem para o tabu dos pelos em torno do corpo de uma mulher. Depois de algumas semanas me acostumando, comecei a gostar dos meus pelos naturais. Eu também comecei a gostar da falta dos episódios desconfortáveis ​​em relação a se depilar. Embora eu me sentisse liberada e mais confiante em mim mesma, algumas pessoas ao meu redor não entendiam por que eu não me depilava, eles não concordavam com isso. Percebi que ainda há muito mais a se fazer para poder aceitar um ao outro de forma plena e verdadeira. Então pensei em Januhairy e pensei em testá-lo. Eu iria começar pelo menos. . . Eu tive muito apoio dos meus amigos e familiares!

Mesmo que com isso eu tivesse que explicar por que eu estava fazendo para muitos deles, o que foi surpreendente, e novamente, a razão pela qual isso é importante fazer! Quando começou a crescer meus pelos pelo meu corpo, minha mãe me perguntou: “Você está apenas sendo preguiçosa ou você está tentando provar um ponto?”. . . por que deveríamos ser chamadas de preguiçosas se não queremos nos depilar? E por que temos que provar isso? Depois de conversar com ela sobre isso e ajudá-la a entender, ela viu como era estranho que ela me fizesse essas perguntas. Se fazemos alguma coisa, vemos as mesmas coisas repetidamente, isso se torna normal. Ela agora vai se unir a Januhairy e deixar crescer seu próprio pelo corporal, o que é um grande desafio para ela, assim como para muitas mulheres que estão se envolvendo.

Claro que é um bom desafio! Esta não é uma campanha raivosa para pessoas que não enxergam como os pelos do corpo são normais, mas sim um projeto de empoderamento para todos aqueles entenderem mais sobre suas opiniões, sobre si mesmo e sobre os outros. Esta foto foi tirada há alguns meses. Agora estou me juntando a Januhairy, iniciando o processo do crescimento novamente junto com as outras mulheres maravilhosas que se inscreveram! Imagens e descrições dos progressos de nossas garotas serão postadas durante todo o mês. Vamos ficar peludas?! 🌵”

E foi hoje, com esse texto e muitos comentários negativos sobre o movimento que, eu parei para escrever à respeito dos meus e dos nossos pelos corporais. Vamos juntas fazer uma breve analise?!

(Detalhe do comentário na foto: foi um homem quem apontou o preconceito, já a mulher foi o preconceito em pessoa).

Vamos lá – higiene é tomar banho, depilação é imposição de costume, no caso imposição de um padrão de beleza – padrão de beleza feminino faz parte das exigências e de todo o sacrifício com as preocupações com o físico, uma condição pela qual mulheres do mundo inteiro se submetem há décadas.
Essas neuroses com a beleza no corpo feminino se espalham de mulher para mulher como uma epidemia, transformando essas neuroses em transtornos alimentares e estéticos.

Não nos esquecemos da bilionária indústria da beleza, ávida a nós manipular, criando novas necessidades o tempo todo. Encarnar a beleza é uma obrigação para as mulheres, NÃO para os homens. Essas instituições giram em torno do poder institucional dos homens.

A caricatura da feminista feia e peluda ajudou a disseminar e ridicularizar o movimento feminista, este mesmo que luta por igualdade e justiça. As mulheres são obrigadas a se submeterem ao julgamento da beleza como se fosse um dom ou um bem. Somos avaliadas pela nossa aparência, numa interpretação diante de um único padrão feminino, esquecendo todos os outros.

Nada é efêmero no patriarcado, é lei.

Portanto, tudo é simbólico, tudo faz parte de uma mensagem subliminar. Então, antes de sair falando “Afff que falta de higiene”, deixe o seu preconceito de lado e saia da caixinha, colega. Pelos não precisam de sua concessão pra existir, eles precisam ser reconhecidos como naturais, normais e femininos!

Eu fiz uma simples pergunta no meu story do Instagram, aqui eu divido algumas respostas…Borá refletir?!

O “abominável” feminismo

Sabe amiga, lembra quando você estava infeliz no seu casamento e, tomou a difícil decisão de se separar?! então, tirando todos os percalços emocionais que uma separação possui, foi por elas que, hoje você não seria mais considerada “aquela mulher desquitada”, aquela que seria julgada ao andar na rua pelos vizinhos, pelo bairro todo, aquela que seria vista como párea da sociedade.

Sabe amiga, lembra quando você decidiu que casamento não era pra você, apesar da decepção dos seus pais, foi por conta delas que, hoje você pode tomar essa decisão sem se tornar “aquela que ficou pra titia”, aquela que a família tinha vergonha, ou aquela que a família mandaria de maneira compulsória para se tornar freira.

Sabe amiga, lembra quando você se apaixonou por aquele garoto e, sua vida sexual começou naquele dia, foi por conta delas que, fizeram uma revolução sexual, pra (hoje) os nossos corpos serem livres para transar, caso contrário você teria que reprimir seus desejos ou se, sucumbisse a tentação, se tornaria “aquela vadia” desmoralizada que deixou de ser virgem antes do casamento, matando a sua tradicional família de vergonha.

Sabe amiga, lembra quando você pegou a sua mala e, embarcou para aquela sua viagem dos sonhos com as suas amigas?! Então, foi por conta da coragem e ousadia delas que, num passado recente saíram às ruas com seus gritos de igualdade entre os gêneros e liberdade da opressão patriarcal que, hoje você não está em casa cozinhando pro seu marido e filhos e, sim viajando livremente pelo mundo.

Sabe amiga, todo dia quando você se arruma para trabalhar, saiba que antes de você outras vieram para abrir caminho para nós nos dias de hoje, tornando o ato de sair para trabalhar, tão natural que, você talvez nem se dê conta de quantas outras mulheres no passado não tiveram a sua oportunidade, elas foram obrigadas a abaixar a cabeça e, se contentarem em serem apenas donas de casa.

Sabe amiga, lembra quando você comprou seu primeiro apartamento?! quanto orgulho. Então, tem país na  África onde a mulher ainda nos dias de hoje não pode ser proprietária, sabia?! aliás, lembra também, quando você comprou o seu primeiro carro e passou lá em casa pra me mostrar toda orgulhosa, lembre-se que na Arábia Saudita, apenas em 2018 elas puderam dirigir carros sob supervisão masculina. Essas suas conquistas pessoais antigamente, simplesmente não seriam possíveis. Afinal, quem manda nessas sociedades, adivinhe, são: os homens.

Sabe amiga, quando você foi pra balada e tomou aquele porre e, eu segurei na tua mão e fomos pra casa, se fosse na época delas (daquelas feministas de antigamente, que você adora meter a boca), você estaria ferrada, seu pai estaria parado na porta do baile, puxando os seus cabelos na frente de todos e, provavelmente você só voltaria a sair de casa para a igreja, casando com um homem sem estar apaixonada.

Sabe amiga, hoje a gente pega o nosso título e sai naturalmente pra votar, o que é tão comum hoje, foi por conta daquelas feministas/sufragistas que lutaram (apanharam) bravamente pra você participar do processo democrático e ser uma cidadã do bem. Ainda que, a nossa participação na democracia, seja infinitamente menor ao homem, foi a luta delas que temos o nosso direito de representar e sermos representadas.

“Somente há pouco mais de 80 anos as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto, adotado em nosso país em 1932, através do Decreto nº 21.076 instituído no Código Eleitoral Brasileiro, e consolidado na Constituição de 1934″.

Sabe amiga, todas essas coisas aparentemente “triviais” e, tantas outras que você acha natural, há pouco tempo atrás não eram. Dá pra acreditar?!!

Você sabe que a maioria da sua liberdade de hoje, veio pela – Segunda Onda Feminista – durante as década de 1960 até a década de 1980?!

Então, veja, você é uma mulher cheia de possibilidades e não sabe, essas possibilidades não caíram do céu, eles foram arrancados do patriarcado a força, a base de luta e muita rebeldia. Mulheres feministas passaram por aqui antes de nós. Não despreze a luta de quem te fez viver de maneira mais livre e mais feliz.

Imagine, por um segundo não ter mais esses “privilégios” adquiridos?!

(se coloque no lugar das mulheres que não os tem?!)

É, pela manutenção desses direitos e pela sua ampliação que, precisamos das feministas, existem milhares de mulheres ainda sem as nossas possibilidades, nossa luta e eterna vigilância precisam continuar, sempre. Não se apague no nome.

Amiga, você não pode continuar acreditando que o machismo seja sinônimo de feminismo, você precisa sair desse relacionamento abusivo chamado cultura do patriarcado, nós somos irmãs, nós somos mulheres, o feminismo não é o seu algoz, ele é sororidade.

Pare, existem mulheres sendo submetidas a todo tipo de violência física, sexual e psicológica todos os dias. Mulheres morrem aos montes pelo crime de feminicídio. A misoginia e o misógino é quem são os verdadeiros inimigos, não as feministas.

Não foram os homens que saíram às ruas por nós! fomos nós, mulheres, que saímos às ruas, nós que corremos atrás da igualdade.

Você não precisa ficar sócia do clube, não precisa andar com a sua carteirinha de feminista, não precisa militar, você precisa apenas validar a nossa luta e o nosso esforço, nós estamos do mesmo lado. Não somos abomináveis criaturas.

Amiga, honestamente eu acredito que falta informação e uma dose extra de boa vontade, pra você entender a importância e as origens do feminismo.

Todas nós ganhamos com o movimento feminista, porque é dessa maneira que avançamos rumo a igualdade. E, nós devemos essa luta por elas que vieram antes, por nós que estamos aqui e, pelas novas gerações de meninas e meninos que certamente, viveram mais plenos e realizados se o mundo não os diferenciar pelo gênero, e sim, pelas suas habilidades, não existe felicidade na opressão.

 

Ilustração: Créditos da imagem: Joan Reilly

A amizade e o porco espinho

Tempos difíceis em que vivemos, não é mesmo?! Todos temos razão e ninguém se entende – minha última postagem no Facebook que o diga – enfim, as relações humanas são complicadas pra cacete, de uma maneira geral e irrestrita.

Escrever é um árduo desafio. Passar a sua verdade e sua opinião sem ofender o outro é tarefa hercúlea. Somos mal interpretados e, corremos o risco do “linchamento” virtual, mesmo quando usamos do nosso direito a livre expressão e a livre manifestação de pensamento. Ok, quer trazer seus contra-argumentos, seja bem vindo, mas não esqueça a sua educação em casa. Não sou obrigada a aturar seu destempero gratuito e grosseiro sobre a minha escrita.

Quem não compactua com seus valores e a sua opinião, deveria ao menos respeitar seu espaço. Somos múltiplos. Não existe unanimidade, até porque, parafraseando Nelson Rodrigues “Ela é burra”. Não acredito em verdade suprema, acredito em empatia e compaixão. Me esforço diariamente pra entender que mesmo aquela opinião mais divergente é fruto de uma bagagem e vivências familiares daquela pessoa. Somos o resultado do que vivemos quando crianças e adolescentes. Portanto, nossas estórias são diferentes.

Agora, vocês devem estar se perguntando e o que o porco espinho tem a ver com todo esse papo politicamente correto?! vou começar minha explicação pela frequência quântica. Estava eu viajando, parei em uma papelaria daquelas que fazem meus olhinhos brilharem, sou capaz de ficar horas olhando os cartões, as canetinhas coloridas e todo aquele universo lúdico. Foi quando eu encontrei no meio de uma prateleira algumas caixinhas de músicas tamanho pétit.

Óbvio, eu até pensei “eu quero”, mas meu impulso foi pensar em algumas amigas. Eu achei que seria uma lembrança meiga, afinal quem não gosta de uma caixinha de música?!

Na volta, assim que eu encontrei com a minha amiga (aquela em quem eu havia pensado na hora da compra), entreguei meu pequeno pacotinho, seu sorriso e sua emoção foram tão grande, muito maior do que a expectativa que eu nutria pelo presente dado à ela, fui eu quem acabou ficando ainda mais surpresa.

Ela olhou pra mim e disse;

 “Você conhece a fábula do porco espinho?!” - 
“Não,Katarinaaa, me conta!!!”.

“Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio.
Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor.
Por isso decidiram se afastar uns dos outros e começaram de novo a morrer congelados.
Então precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros.
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos.
Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro.
E assim sobreviveram.

Moral da História:

O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro, e a valorizar suas qualidades”

Lindo, não é mesmo?!

Sem eu saber e diante de tantas outras opções de caixinhas de músicas, eu, justamente escolho aquela em que o significado é puro amor e aprendizado. Isso se chama entrelaçamento quântico.

Na física, sua definição em relação às pessoas é a seguinte – Quando você e seus amigos estão rindo juntos de uma boa piada, não são apenas as suas risadas que estão sincronizadas: suas atividades cerebrais também.

Um estudo da Universidade Aalto e do Centro Turku PET na Finlândia descobriu que quando as pessoas compartilham qualquer forte estado emocional, seus corpos e cérebros processam de maneira similar; eles sincronizaram.

Conviver em bando não é fácil, mas quando radicalizamos nosso discurso, quando a nossa verdade se torna absoluta, a convivência é caótica. Perdemos nosso poder de sincronicidade.

Perdemos nossos amigos…

Ficamos sozinhos

Amigos deixam de ser amigos quando os espinhos ferem, mas todo mundo tem seus espinhos e seus dias de “espinhuda”, ora, não tem como viver sem eles, fazem parte de todos nós. Por isso, vamos usar nossa sabedoria e compaixão, não dá pra perder amigo por conta de ideologias, (claro, exceto ideologias que compactuem com o racismo, o machismo, a xenofobia e por aí a fora).

Aceitar que seu amigo tem seus dias, aceitar que ele não quis te ofender, entender que o que ele disse, fala muito mais à respeito dele do que na verdade sobre você. Não, não é fácil, mas é possível.

Que a fábula do porco espinho, te inspire a perdoar e aceitar um amigo ou a si próprio.