#Nos40DoSegundoTempo

A rua – Nova Iorque

Eu sempre gostei da rua. Quando eu era criança, tive a felicidade de morar numa vila cheia de outras tantas crianças. Minhas brincadeiras eram na sua grande maioria a céu aberto. Quando a gente ficava no ócio, sem ter nada pra brincar, continuávamos na rua, sentados nas portas das casas, nas calçadas, jogando conversa fora, brigando, tirando sarro da cara um do outro, enfim era a rua o meu parquinho, a minha área de lazer.

Quando adolescente continuei na rua, mas agora eu tinha a turma do prédio e os meus amigos moravam todos pelo bairro. Vivíamos de rua em rua, cada hora íamos pra um canto das ruas planas de Moema em São Paulo, mas nosso “point” mesmo ficava na Rua Iraí, consequentemente nossa turma também recebeu o mesmo nome dela “Irai’s Gang”.

Casei, e, em pouco tempo fui morar numa casa. A casa ficava em frente a um parque com árvores enormes e muito verde. Esse virou o quintal dos meus filhos quando pequenos. Até hoje, quando estou entediada & irritada, Ying & Yang – não importa o meu humor – sempre saio pra andar na rua ou pelo parque com as minhas cachorras: Marie & Lolla.

Então, acho que até esse momento, eu consegui passar um pouquinho da minha relação com a rua, não é?! sinto não poder andar livremente por São Paulo como antes eu fazia, na minha adolescência, nunca senti o medo que eu sinto hoje, não me atrevo a levar as cachorras pra andar tarde da noite, pelas ruas do meu bairro. Impossível, me imaginar andando pelas ruas de uma cidade como São Paulo, sem a preocupação de ser abordada.

E, é aí que, eu começo a explicar o meu fascínio por Nova Iorque. Às vezes as pessoas não entendem o porquê de todo ano eu vir pra cá, Elas perguntam “Você não se cansa de ir pra Nova Iorque?!l Não. Aliás, eu não conto Nova Iorque como uma viagem de turismo, e sim, como uma viagem de reciclagem. Reciclagem das minhas ideias, da minha criatividade, da minha cultura, da minha capacidade de lidar comigo (posso chamar isso de “boa solidão”), da minha capacidade de ter jogo de cintura, da minha liberdade de ir e vir, da libertação das amarras dogmáticas do nosso cotidiano, de não me criticar com rigidez, de ter coragem para ousar. Enfim, são muitos os motivos que me trazem todos os anos até aqui.

Mas se eu tivesse que escolher apenas um bom motivo, seria ela – A RUA – ela, a minha amada rua que sempre me recebeu de braços abertos durante a minha infância, adolescência e hoje, me recebe como mulher. Que permite ser a minha própria válvula de escape, pela qual eu posso desbravar diariamente novos lugares, deixando de lado todo aquele medo da violência em que me acostumei a viver e pela qual, se tornou uma triste instrução normativa.

Dessa vez, minha estadia por Nova Iorque será muito mais longa do que de costume. E, eu não poderia ficar em outro bairro, se não o meu querido Soho – ele sempre me lembra das minha várias ruas – Além, do fato de ter sido uma garota de vila, eu adoro essa coisa meio bairrista onde as pessoas se cruzam o tempo todo, que só existe por aqui nessas ruas de paralelepípedo, com todas elas juntas e misturadas, cada uma na sua.

Meu amor por NY vai muito além do consumo – obviamente, não serei hipócrita, esse lado é altamente atrativo, e, aqui é o melhor lugar no mundo para fazer shopping – mas acima disso, a liberdade que eu desfruto é maior do que qualquer item para o meu consumo. A minha liberdade não tem preço, quando se trata de andar sozinha, com ou sem meu relógio, com as minhas jóias, com o meu shorts curto, com a minha Havaianas ou a liberdade de sentar sozinha pra almoçar (sem que isso seja estranho), a normalidade de sentar para escrever no café por horas a fio (sem que isso seja absurdo), simplesmente a rua daqui é democrática. Ela abriga todos, todas, do jeitinho que cada um é ou da maneira como cada um deseja ser.

Nessa minha temporada novaiorquina, eu tive 3 fases até agora: a primeira foi uma festa. Éramos em quatro amigas, eu por questões de conhecer muito bem a cidade, naturalmente me tornei a “Tia Augusta” do grupo, nos apelidamos de Divas em Nova Iorque (uma espécie nacional de SATC). Andamos muito de um lado para o outro da cidade. Já na segunda fase, de quatro, virei uma dupla. Eu e a minha amiga Simone, nos concentramos mais por desbravar cada cantinho charmoso do SOHO.

Na terceira fase, fiquei sozinha ou melhor com a minha filha (mas ela está aqui pra estudar, seu curso começa às 9:00 da manhã e só terminava às 4:00 da tarde). Por isso, digo que estou sozinha, pelo menos durante a grande parte do meu dia. Foi nesse momento de “boa solidão” que eu inventei uma meta diária para mim. Andar no mínimo 8KM pela cidade, sem um roteiro escrito, totalmente sem lenço e sem documento.

Eu nunca tinha feito isso por aqui. Sempre acordava sabendo minimamente o que fazer durante o meu dia. Dessa vez eu não queria roteiro. Passei a caminhar pela cidade sem destino, quando chegava em algum lugar mais interessante, parava tirava uma foto, uma selfie, tomava um café, entrava numa loja nova, conhecia uma esquina famosa, mas nada disso estava agendado. Durante a caminhada, eu decidia por quais ruas eu passaria. Olha, que experiência bacana, tive mais um novo olhar por essa cidade que me encanta tanto. Sei que aqui tem muita coisa errada, posso dizer logo de saída que as estações do metrô são nojentas, que as ruas são sujas, que muitas vezes as vendedoras são muito grossas, mas não posso dizer que eu me sinto amedrontada pegando esse mesmo metrô nojento ou me sinto intimidada por uma cara feia.

Dos males das grandes cidades grandes, certamente estes não são tão importantes assim. Eu já viajei por diferentes países do mundo, também senti essa mesma liberdade em vários outros deles, como em Tokyo no Japão – nunca vi um país tão limpo e educado na minha vida toda – Bucareste na Romênia – fiquei impressionada com a alta qualidade da gastronômica e como era tranquilo andar pelas ruas, ainda mais se tratando de um país com problema econômicos e sociais – Ah, não pode faltar na minha lista Barcelona (por razões óbvias), como o fato da minha irmã morar por lá – andar de madrugada é tão gostoso como por aqui, nada de entrar em carros blindados, aliás duvido que exista blindagem naquele país.

Nova Iorque me dá um sopro da minha tão preciosa liberdade, aquela em que eu me acostumei a não ter mais. Aquela que me faz prisioneira de um estado fracassado, onde eu moro e onde o indivíduo não se sente protegido. Nova Iorque me dá o que eu não tenho. Aqui eu sou livre, ando pelas ruas do jeito que me der na telha. Arrumada, maloqueira ou como diz a minha amiga Dedis “Você é uma moleca chic”. Não troco o que esta cidade me dá, por nenhum novo destino, são eles que precisam se encaixar na minha Nova Iorque querida de todo ano. E, como eu ainda não coloquei as pernocas pra andar hoje, vou me arrumar, comer um bagel com salmão do Sadelle’s , (porque eu acordei sonhando com ele) e depois vou bater a meta do dia…ainda sem rumo e sem destino previamente estabelecido. Vou aonde eu quiser, a rua é quem vai me levar.

Nova Iorque Parte {2}

E aí, gostaram do primeiro vlog de Nova Iorque?! já pode assistir o segundo, que também ficou demais!!!!
Corre e aperta o play, minha gente!!!

YouTube: https://www.youtube.com/c/lucianamicheletti

O que você estava fazendo há 15 anos atrás?!

Quando fizeram essa pergunta no programa CQC, desta semana, um filme passou pela minha cabeça e foi parar, mais ou menos a uns 13 anos atrás, não exatamente 15 anos.

Eu estava me mudando de mala e cuia para Nova York, com meu marido e os meus dois filhos pequeno – sim, eles eram pequenos (suspiro de saudades). Além, do meu cachorro, um simpático buldogue inglês, chamado Romeu (outro suspiro de saudades).

Me lembro exatamente do dia que embarcamos, também como eu poderia me esquecer, naquele 01 de Julho de 2002, o Brasil se tornava pentacampeão no futebol.
A grande maioria das pessoas, dentro do avião, vestiam camisa da seleção brasileira ou qualquer blusa verde-amarela, imaginem a minha emoção, mudando de país, justamente no dia em que o meu país se tornava campeão mundial. Foi uma despedida, com uma carga enorme de patriotismo.

Viva Brasil!!

Viva Brasil!!

Enfim, aterrissamos no aeroporto JFK com uma “pequena bagagem”, já podem imaginar, né?? era mala que não acabava mais. Em um primeiro momento fomos morar em um flat (onde ficamos por um mês).

Esse primeiro mês, pra mim foi super divertidíssimo, afinal eu estava morando apenas a uma quadra do Central Park e no coração de Manhattan. Andava a pé, empurrando o carrinho das crianças  para todos os lados – o Pedro já maiorzinho, ficava na cestinha embaixo do carrinho, enquanto a Cora andava no andar de cima, uma pequena adaptação, afinal andávamos muito todo dia pela ilha, em pleno verão.

Tudo ía muito bem, até que finalmente a casa que alugamos no subúrbio ficou pronta. Ela era uma graça, uma típica casa americana, sem grades, toda de madeira, com um enorme jardim, basement para as crianças brincarem no inverno, cozinha abertona para a sala, deck de madeira para o barbecue, enfim com este cenário todo, só faltava a housewife perfeita, do filme Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives), né?!

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Casinha em RYE/NY!!

Pois é, mas o meu negócio nunca foi ser housewife, e, muito menos perfeita. Meus problemas começaram…

Comecei a sentir um enorme vazio, uma saudades de tudo e de todos no Brasil. Achava aquela minha nova cidade -Rye- linda, repleta de natureza, mas terrivelmente tediosa, principalmente se você levar em consideração que tinhamos acabado de nos mudar nas férias de verão, ou seja o povo todo tinha evaporado. Ninguém andava pelas ruas, isso me dava um enorme desespero, precisava desesperadamente ver gente.

Eita, comecinho duro. Finalmente, as aulas das crianças começaram e com isso, minha pacata vida social, também se iniciou. Aproveitei a minha falta do que fazer e fui ser voluntária na escola, junto com outra brasileira, recém moradora da mesma cidade. Participamos de uma festa para arrecadar $ para a escola, aliás se arrecada $ para tudo por lá. Introduzimos a barraca da pescaria, novidade para os americanos. Nossa barraca foi a mais visitada e com isso, a que mais arrecadou $. De cara, já fiquei “famosa” na região e por consequência, convidada para a festinha de agradecimento.

Assim, comecei a ampliar minhas amizades. Claro, algumas americanas, eram muito americanas pro meu gosto, mas eu precisei entender o jeito delas, completamente diferente do das brasileiras, principalmente no quesito intimidade. Tudo é muito formal, a começar pelo cumprimento feito pelas mãos, nada de beijinho no rosto.

Minhas novas amigas ( todas americanas)!!

Minhas novas amigas ( todas americanas)!!

Sobre a vida doméstica, aprendi a cuidar da minha casa – sozinha – nada de intermediárias. Confesso, que não amava, que tinha dias onde a minha vontade era zero, até de esticar o lençol da cama, mas o pior mesmo ficava por conta da comida, odiava e ainda odeio cozinhar, mas com 2 filhos pequenos não dava pra se fazer de besta, tive que encarar.

Tá certo, que até hoje tiram sarro das minhas tentativas de preparar um simples arroz com feijão, mas quando nada dava jeito na cozinha, eu recorria aquelas bandejas de “fast food” prontas, cheia de gordura trans, que toda criança ama de paixão e toda mãe sabe que não presta, mas mesmo assim acaba dando na hora do desespero.

Diante, de tantas tarefas domésticas: levar as crianças na escola, cuidar de casa, passear com o cachorro, levar o lixo pra fora de casa, cozinhar, varrer, ir ao supermercado, etc. Chegou, a minha vez de fazer alguma coisa que me desse prazer, foi então quando eu me matriculei na curso de Image Consulting da FIT. A primeira aula foi um desafio enorme, logo de cara, fui felicitada com uma prova, e, eu ainda não estava nada acostumada com toda aquela terminologia de moda. Precisei estudar bastante.

Mas, consegui após os dois anos de curso, me formar, mesmo com a vida de dona de casa. Ao todo, ficamos morando 3 anos nos Estados Unidos, quando lembro das dificuldades que enfrentamos, das saudades que dava toda vez que eu voltava de férias do Brasil, do inverno/frio que nunca acabava, do jeito menos intimista dos americanos de tratarem as pessoas, das confusões com a língua inglesa (que me fizeram ter aula particular no começo dessa temporada), enfim, olhando pra trás…agradeço a cada dia por ter passado pela experiência única, que é morar fora do seu próprio país.

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Eu (2002)!

E quem sabe, daqui a 15 anos eu me faça essa mesma pergunta e tenha a felicidade de ter sido tão feliz, como eu fui há 13/15 anos atrás. E, você?? o que estava fazendo há 15 anos atrás?!!

Fotos: DQZ